Saúde mental ignorada em documentos da cop30, apesar do impacto climático

Diego Brito
Diego Brito

Apesar de uma parcela significativa da população brasileira, cerca de 42%, relatar que a crise climática atual afeta sua saúde mental, a questão não foi diretamente abordada nas resoluções e documentos oficiais da COP30 Brasil Amazônia, realizada em Belém, no Pará.

Dados inéditos sobre ansiedade climática, incluindo a informação de que 54% dos brasileiros se preocupam com os impactos ambientais diariamente ou semanalmente, vieram à tona com a 4ª coleta do Panorama da Saúde Mental, pesquisa realizada pelo Instituto Cactus em colaboração com a AtlasIntel. A divulgação dos resultados foi estrategicamente agendada para o dia 2 de novembro, antecedendo o início da COP30, em 9 de novembro.

O Panorama da Saúde Mental avalia o bem-estar emocional da população brasileira através do ICASM (Índice Contínuo de Avaliação de Saúde Mental). Os resultados são apresentados em uma escala de 0 a 1.000, com base nas respostas ao GHQ-12 (Questionário Geral de Saúde), que avalia a saúde mental no Brasil. Uma pontuação de 1.000 indica os níveis máximos de confiança, vitalidade e foco.

Além da avaliação geral da saúde mental, cada edição aborda um tema específico relevante para o debate social. Desta vez, o foco foi a ansiedade climática. Segundo o gerente executivo do Instituto Cactus, Bruno Ziller, a escolha do tema se justifica pela importância da questão, especialmente às vésperas da COP30, onde a saúde mental poderia não receber a devida atenção nos debates climáticos.

Foram analisadas três resoluções da COP30, que incluem a Declaração sobre a Integridade da Informação sobre Mudança do Clima, a Reunião Ministerial sobre Urbanização e Mudanças Climáticas, e a Declaração de Belém para a Industrialização Verde. Adicionalmente, foram examinados sete documentos da Cúpula do Clima de Belém, como a Declaração de Lançamento do TFFF e o Chamado à Ação sobre Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais. Em nenhum desses documentos, a saúde mental ou o bem-estar emocional são diretamente mencionados. Os documentos foram elaborados em conjunto pelos países participantes, com o Brasil como país sede.

Embora a saúde mental não seja o foco central das negociações climáticas, concentradas na resolução da crise ambiental em si, a pesquisa indica a necessidade de abordar os efeitos positivos das ações climáticas na saúde mental, e informar a população sobre o tema. Uma pesquisa com 10 mil pessoas revelou que 72% acreditam que governos e líderes políticos deveriam assumir a liderança no enfrentamento do debate climático.

As resoluções abordam a saúde de forma geral, associando-a aos impactos físicos e sociais da crise climática e da desigualdade, mencionando o impacto nas comunidades vulneráveis, o agravamento da saúde por pobreza e fome, e os riscos de incêndios florestais. No entanto, o foco permanece na saúde física e bem-estar geral, sem mencionar ações diretas relacionadas à saúde mental e bem-estar emocional.

O Panorama de Saúde Mental revelou que os 42% dos brasileiros afetados pelas mudanças climáticas apresentam indicadores de saúde mental significativamente menores (ICASM de 596) em comparação com aqueles que não percebem efeitos da crise ambiental (ICASM de 744), uma diferença de 148 pontos. Segundo Ziller, a ansiedade climática é um fenômeno presente e exige atenção especial.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que o tema foi abordado em painéis do Pavilhão Brasil, tanto na Zona Azul quanto na Zona Verde da COP30. Na Zona Azul, foram realizados debates sobre sistemas de saúde resilientes e transformação digital na saúde, nos quais os impactos de saúde mental foram contextualizados pelos aspectos socioeconômicos. Na Zona Verde, os impactos sobre a saúde mental foram discutidos em painéis sobre AdaptaSUS. Além disso, a pasta realizou uma exposição sobre os efeitos na saúde de trabalhadores de diversos setores.

Fonte: vidasimples.co

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