Redefina o sucesso: encontre a liberdade ao abandonar a competição

Diego Brito
Diego Brito

A busca incessante por conquistas e reconhecimento pode, ironicamente, aprisionar. Em vez de competir, a chave para uma vida mais plena reside em criar a partir das experiências acumuladas. Este processo de amadurecimento pode representar uma verdadeira “virada de chave”, abrindo portas para novas formas de viver e experimentar o mundo.

A psicanalista e especialista em comportamento humano, Gisele Hedler, vivenciou uma transformação radical ao ser diagnosticada com uma doença autoimune no auge de sua carreira. Reconhecendo o estresse como o principal gatilho, ela se viu diante da necessidade de parar, apesar da crença de que sua ausência levaria ao colapso de tudo que havia construído.

“Eu era a sabotadora da minha própria saúde. Irônico, né? Trabalhar com saúde e não conseguir cuidar da minha”, reflete Gisele. A situação se agravou com a perda da função renal, exigindo hemodiálise e um transplante. A experiência de receber um órgão de um doador falecido a proporcionou uma nova perspectiva sobre a vida.

A lição aprendida foi que todos somos substituíveis, e essa percepção não precisa ser sinônimo de fracasso. A empresa de Gisele não apenas sobreviveu, como continuou a prosperar em sua ausência. O conselho para aqueles que sentem a aproximação dessa fase é evitar esperar que o corpo grite, pois o alerta pode vir tarde demais. A virada, segundo ela, pode ser consciente e não necessariamente catastrófica, desde que haja coragem para admitir que a corrida não vale a vida.

O exemplo de Gisele ilustra uma situação extrema, mas os sinais de que a vida se tornou uma competição exaustiva podem se manifestar de diversas formas, como cansaço físico e mental. Essa exaustão, muitas vezes, esconde uma dependência da performance. A dopamina liberada pelas conquistas, pelos elogios e pela validação nas redes sociais ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa que outras dependências, exigindo doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito.

Eventualmente, o corpo e a mente cobram seu preço. A psicanalista ressalta que as pessoas frequentemente usam a performance como uma forma de evitar o vazio e a necessidade de responder à pergunta fundamental: “Quem eu sou quando ninguém está aplaudindo?”.

A maturidade chega quando se percebe que a identidade foi construída sobre a busca por aprovação externa, transformando-se em uma prisão. A busca incessante por ser “bom o suficiente” se revela uma armadilha sem fim, levando à exaustão. É nesse momento que se para de terceirizar o próprio valor, deixando de buscar validação externa e passando a afirmar “eu sou”.

Após essa revelação, inicia-se uma fase de descompressão interna, acompanhada por angústia, pois as estruturas que sustentavam a identidade de “realizador” são abaladas. No entanto, essa fase também abre espaço para uma integridade mais profunda. As escolhas passam a ser motivadas não pela busca por reconhecimento, mas pelo desejo de contribuir, sustentar e expandir com verdade. Em vez de correr, começa-se a construir e a cuidar do jardim que já foi plantado.

Roberto Zimer, mestre em psicologia organizacional e professor da USP, observa que, ao abandonar a lente da performance, a forma como interpretamos a realidade se transforma. Em vez de questionar apenas se estamos entregando o suficiente, passamos a perguntar se o que fazemos tem sentido para nós e se está alinhado com nossos valores.

Essa mudança de perspectiva não se restringe ao ambiente de trabalho, estendendo-se às relações interpessoais e a todas as áreas da vida. A ambição saudável da maturidade reside em contribuir e servir, utilizando os talentos para o crescimento dos outros. O resultado interno é a paz, o contentamento e a sensação de estar alinhado com o que é certo, percebendo que o tempo está sendo bem empregado e que a vida tem um propósito coerente com os valores.

Zimer compartilha sua própria “virada de chave”, que ocorreu durante a faculdade de Engenharia Mecânica, quando percebeu que não tinha vocação para a profissão. Abrir mão dos planos e das expectativas familiares foi um momento difícil, mas também o início de uma nova relação com os conceitos de competição, sucesso e contribuição.

Para aqueles que sentem esse chamado, mas não sabem como agir, Zimer aconselha a levar a sério a voz interior, questionar as crenças coletivas sobre o sucesso e dar pequenos passos na direção daquilo que gera entusiasmo e paixão, mesmo que isso signifique desapontar expectativas externas para ser mais fiel a si mesmo.

Para sustentar essa mudança, é fundamental criar uma base concreta no dia a dia, com escolhas e limites que lembrem que a competição constante foi deixada para trás. Gisele enfatiza que o que sustenta essa transição não é o que parece bonito nas redes sociais, mas o que mantém a pessoa acordada para sua própria vida. O descanso verdadeiro, longe de e-mails e tarefas, é essencial para evitar que o piloto automático retorne. Práticas que conectam ao corpo, como meditação e exercícios, também são importantes, pois a competição reside na mente e se alimenta de pensamentos acelerados e comparações. A curadoria do que se consome, evitando conteúdos que promovem a produtividade e o sucesso a qualquer custo, é fundamental para manter a clareza sobre o motivo de ter saído da corrida.

Fonte: vidasimples.co

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