Em um mundo onde a produtividade é constantemente valorizada, o descanso tornou-se um artigo de luxo, quase um sinônimo de preguiça. A pressão para manter um ritmo acelerado e cumprir agendas lotadas nos desconectou de uma necessidade biológica fundamental: a pausa. Mas, e se o descanso não fosse apenas uma recompensa após o trabalho, mas sim uma forma de inteligência corporal?
Muitos de nós, mesmo quando temos a oportunidade, lutamos para desacelerar. A mente e o corpo, condicionados à velocidade, parecem incapazes de acionar os mecanismos que permitem a restauração genuína. Mas como podemos reaprender a descansar? Essa indagação foi o ponto central da discussão conduzida pela terapeuta somática Sabrina Schwab, pesquisadora da relação entre sistema nervoso, trauma e neurobiologia do apego, que define o descanso como “uma espécie de inteligência corporal”.
Em uma sociedade que valoriza o desempenho, as necessidades do corpo são frequentemente silenciadas. “Vivemos uma desconexão do corpo. Somos uma cabeça flutuando por aí”, afirma Schwab. O descanso, quando acontece, é visto como uma ação pragmática para recarregar as energias antes de retomar a labuta. No entanto, o descanso profundo é muito mais do que isso.
Schwab iniciou sua investigação sobre o descanso em 2018, ao perceber que seu próprio sistema nervoso estava constantemente ativado devido a traumas passados. Para reconectar-se com seu corpo, ela começou um experimento pessoal: deitar-se no chão por uma hora ou mais diariamente, simplesmente observando o teto e sentindo o contato do corpo com a superfície. Essa prática a ajudou a entender como o chão a recebia e como ela recebia o chão. Essa experiência foi então incorporada em suas aulas de yoga para auxiliar os alunos a restaurarem seus sistemas nervosos.
Para entender o descanso como inteligência corporal, Schwab detalha o funcionamento do sistema nervoso autônomo, composto pelos sistemas simpático e parassimpático. O sistema nervoso simpático é responsável por nossas ações e reações, incluindo as respostas de luta ou fuga em situações estressantes. O sistema nervoso parassimpático, por sua vez, possui dois ramos: um especializado em descanso e digestão, ativado quando nos sentimos seguros, e outro (vago ventral) responsável pela conexão social e pelo engajamento.
Em interações sociais, por exemplo, todos os ramos estão ativos. No entanto, o estresse crônico e o trauma podem levar a um desequilíbrio, mantendo-nos constantemente no modo simpático, priorizando a ação em detrimento da digestão e do descanso.
Schwab enfatiza que o descanso não é um ato passivo, mas sim um movimento ativo. A passividade total é impossível, pois a mente está sempre ativa. O aspecto ativo reside na necessidade de realinhamento constante do corpo e da mente. Se um pensamento causa uma contração corporal, é preciso se convidar ativamente a ceder novamente, a entrar em contato com o chão novamente. Esse ato de ceder à gravidade, e não a uma pessoa, envolve um micromovimento profundo no corpo.
O corpo pode apresentar sinais como bocejos, arrotos ou suspiros ao mudar do sistema simpático para o parassimpático, facilitando a digestão e o repouso.
A dificuldade em descansar, mesmo com tempo livre, pode ser atribuída ao vício químico que a aceleração gera. O sistema nervoso simpático libera hormônios como adrenalina e noradrenalina, que podem levar a um estado constante de excitação e ansiedade. No entanto, viver em alta voltagem por muito tempo é insustentável e prejudicial. O descanso real está ligado ao equilíbrio biológico, a um estado em que não nos sentimos acelerados ou na urgência de fazer algo.
Trata-se de cultivar a homeostase, um estado de harmonia no corpo. Embora eventos cotidianos possam nos desestabilizar, teremos criado uma “janela de tolerância” para nos recuperarmos do estresse em uma velocidade ideal, sem que o evento nos impeça de dormir por dias.
O descanso não é um evento pontual, mas sim contínuo. Devemos estar descansando na vida da mesma forma que estamos nos movendo na vida. É crucial encontrar suporte para o relaxamento, pois o sistema nervoso só relaxa quando se sente amparado. É preciso praticar agora, descobrindo maneiras de encontrar o próprio jeito de descansar.
O exercício de sentir o corpo e ceder à gravidade pode ser praticado todas as noites antes de dormir. Ao perceber quais partes estão mais soltas e quais estão mais tensas, podemos tentar ativamente relaxar os pontos contraídos e nos entregar ao suporte do colchão. Dessa forma, o sono chega sem resistências, permitindo uma restauração profunda durante a noite.
Fonte: vidasimples.co