A chegada antecipada de um bebê transforma radicalmente a experiência da maternidade. Adriana Rampazio, assim como muitas outras mães, viu seus planos interrompidos quando seus gêmeos, Diogo e Lucas, nasceram prematuros. O que era uma gestação cuidadosamente acompanhada se converteu em uma rotina de UTIN, repleta de incertezas e emoções intensas.
O Brasil figura entre os dez países com maior incidência de partos prematuros no mundo, com cerca de 340 mil nascimentos antes das 37 semanas a cada ano. Essa taxa, que supera a média global, representa inúmeras famílias que precisam se readaptar a uma nova realidade.
Durante o Novembro Roxo, período dedicado à conscientização sobre a prematuridade, a atenção se volta não apenas aos cuidados com o bebê, mas também ao impacto psicológico e emocional na vida das mães.
O puerpério, tradicionalmente associado aos primeiros momentos em casa com o bebê, assume contornos diferentes para essas mulheres. Em vez de fraldas e roupinhas, a rotina é marcada por monitores e incubadoras. Adriana, por exemplo, enfrentou semanas de angústia ainda durante a gravidez, devido a um diagnóstico de síndrome de transfusão feto-fetal. Seus filhos nasceram com apenas 25 semanas, sendo considerados prematuros extremos.
A maternidade, para muitas, começa atrás de um vidro, em um ambiente hospitalar. Essa experiência frequentemente é acompanhada pelo medo e pela culpa. A psicanalista Simone Dantas, coordenadora do Núcleo de Saúde Mental da Prematuridade.com, explica que as mães se sentem responsáveis pelo nascimento prematuro e pelo sofrimento do bebê.
A culpa, muitas vezes, precede qualquer boletim médico. Questionamentos sobre o que poderia ter sido feito de diferente são comuns, mesmo quando há uma causa médica evidente. Esse sentimento é acompanhado por medo, raiva e confusão.
Além disso, muitas mães vivenciam um luto silencioso pela gestação que não chegou ao termo esperado. Não houve o tempo necessário para se despedir da gravidez e se preparar para a chegada do bebê. Simone Dantas descreve esse momento como “sideração”, um bloqueio emocional causado pela falta de tempo para processar a situação.
Em meio a cobranças por força e gratidão, essas mulheres podem estar se despedindo do parto idealizado, das fotos que não foram tiradas e do enxoval não utilizado. É essencial que elas recebam acompanhamento de profissionais de saúde mental, com suporte psiquiátrico e, se necessário, medicação.
Na UTIN, a ambivalência é constante: o desejo de abraçar e proteger o filho se mistura com o medo de se apegar e perdê-lo. Construir um vínculo nesse contexto, mesmo sem garantias, é fundamental para a saúde emocional da mãe e do bebê.
A ansiedade e a impotência também são sentimentos frequentes. A rede de apoio, composta por familiares e amigos, desempenha um papel crucial nesse momento. O apoio prático e emocional, como acompanhar consultas, levar comida e cuidar da casa, faz toda a diferença.
Adriana encontrou força em outras mães na UTIN, compartilhando experiências e oferecendo apoio mútuo. Hoje, seus filhos estão saudáveis e cheios de energia, mas a experiência da prematuridade deixou marcas profundas.
Para as mães que estão passando por essa situação, Adriana oferece um conselho: cuidar de si mesmas é essencial. Reconhecer as próprias emoções, se permitir chorar e descansar também são formas de cuidar do bebê. A presença da mãe, mesmo que breve, é fundamental para fortalecer o vínculo e transmitir segurança e amor.
A prematuridade é um tema complexo que envolve tecnologia, políticas públicas e acesso a cuidados médicos. Mas, acima de tudo, é sobre mulheres que enfrentam desafios únicos e que precisam de apoio e compreensão.
Fonte: vidasimples.co