Em meio à agitação da vida moderna, dedicar um momento para um ritual que exige serenidade pode ser profundamente revigorante. A preparação do matcha, que envolve a combinação cuidadosa do pó de chá verde com água quente, seguida de uma suave mistura com um batedor de bambu até alcançar a textura de uma espuma delicada, oferece muito mais do que apenas uma bebida. Este processo milenar convida à presença, transcendendo as tendências passageiras observadas em cafeterias e plataformas de mídia social. O matcha, carregado de tradição secular, incorpora uma filosofia que se alinha perfeitamente com um estilo de vida que valoriza o equilíbrio e a consciência.
A história de como o cineasta Álvaro Dominguez, fundador da Namu Matcha, se conectou com o chá verde em pó é marcada por serendipidade e transformação. Segundo ele, o matcha “chegou” em sua vida. Sua jornada começou em 2014, quando começou a produzir vídeos para uma marca mexicana que comercializava o chá. Mergulhado em filmagens e receitas, ele se viu cativado: “Eu via aquele pozinho verde sendo usado em doces, pratos salgados, bebidas diferentes. Achei o sabor interessante e comecei a pesquisar mais.”
Essa curiosidade evoluiu para um propósito maior ao descobrir a história por trás do chá que a marca importava da Coreia do Sul. O chá era parte de um projeto governamental para revitalizar a região de Hadong, um local com uma tradição de cultivo de chá com mais de 1.200 anos, que estava à beira do desaparecimento. Diante do êxodo de jovens para as cidades e do declínio da cultura do chá, o governo investiu em pesquisa e manufatura para revitalizar a produção local.
Foi nesse contexto que Dominguez vislumbrou o verdadeiro potencial do matcha: “É algo que faz bem para mim, para quem produz, para o meio ambiente e para quem consome.”
Originário do Japão, o matcha é cultivado artesanalmente a partir de folhas de chá verde (Camellia sinensis) protegidas do sol nas semanas anteriores à colheita. Esse método aumenta a concentração de clorofila e aminoácidos, conferindo à bebida sua cor vibrante e sabor característico.
Os rituais associados ao matcha são profundamente enraizados na cerimônia do chá japonesa, o chanoyu, uma prática que integra espiritualidade, estética e atenção plena. Esse espírito continua a inspirar aqueles que buscam momentos de pausa consciente em suas vidas diárias.
Introduzir o chá verde em um país como o Brasil, tradicionalmente apreciador de café, exigiu uma abordagem estratégica. Segundo Dominguez, “Se a gente entende o matcha como concorrente do café, está olhando pelo prisma errado. Desde o início, pensei: como posso adicionar mais uma opção ao mundo do café?”.
O maior desafio, segundo ele, foi a adaptação cultural. “As pessoas precisam se identificar com a novidade. Por isso, investimos em educação – ensinamos baristas e cafeterias como preparar e servir.”
O preparo tradicional do matcha exige atenção: água a 70 °C, o uso do chasen (batedor de bambu) e do chawan (tigela larga), e movimentos rápidos em “W” para incorporar ar e criar uma espuma cremosa. “Esse processo demanda presença. Você precisa sentir a temperatura, observar a textura, encontrar o ritmo da mão. É um exercício de atenção plena”, explica Dominguez.
Ele compara o preparo do chá ao ato de coar café com calma, observando o fluxo da água. “Tudo o que se faz com consciência é uma forma de desacelerar. Quando você presta atenção no que está fazendo, elimina os estímulos externos e foca só em uma coisa. É assim que se treina a presença e ela se reflete em todas as áreas da vida.”
Além do ritual, o matcha oferece diversos benefícios para a saúde. Rico em vitaminas C e E, clorofila e minerais como zinco e selênio, destaca-se pelo equilíbrio entre cafeína e L-teanina – um aminoácido que promove relaxamento sem causar sonolência. “O resultado é foco, concentração, menos ansiedade e uma sensação de bem-estar mais estável”, explica Dominguez. Estudos confirmam esses efeitos, mostrando que a combinação única de cafeína e L-teanina ajuda a manter a energia por mais tempo, sem os picos e quedas associados ao café.
O matcha atrai um público diversificado, desde baristas e entusiastas de novos sabores até aqueles que buscam bem-estar, equilíbrio e hábitos mais conscientes. A recomendação geral é consumir de duas a três colheres de chá por dia, o equivalente a duas ou três xícaras prontas. É importante estar ciente de que a concentração de cafeína varia dependendo da idade das folhas de chá.
Embora o matcha seja geralmente seguro, é essencial tomar precauções. Evite consumi-lo em jejum ou durante jejuns intermitentes e esteja ciente de quaisquer restrições específicas. Mulheres grávidas, lactantes, crianças e pessoas com hipertensão devem evitar o consumo. Indivíduos com pressão arterial baixa devem ter cuidado, pois a combinação de cafeína e L-teanina pode causar quedas de pressão.
Hoje, o matcha é utilizado em uma variedade de receitas, sobremesas e lattes coloridos. No entanto, a beleza fundamental do matcha reside no ato simples de preparar o chá e observar a formação da espuma. Para Dominguez, o mais importante é a sensação de presença que o ritual evoca.
Fonte: vidasimples.co